O capim-dourado do Jalapão é mais do que uma matéria-prima para peças decorativas. No Tocantins, comunidades tradicionais preservam conhecimentos relacionados à coleta, ao trançado e à costura das hastes com fibras de buriti. A atividade gera renda, fortalece a identidade cultural e depende do cuidado com os campos úmidos e as veredas onde a planta ocorre.
Na comunidade quilombola de Mumbuca, em Mateiros, o artesanato é associado a técnicas transmitidas entre gerações. O trabalho envolve a identificação do capim maduro, a retirada seletiva das hastes e a produção de objetos como bolsas, cestos, vasos, mandalas, bijuterias e utensílios. A tradição também é relacionada a conhecimentos indígenas incorporados pelas comunidades locais. (gov.br)
Como é feito o artesanato de capim-dourado
O capim-dourado, conhecido cientificamente como Syngonanthus nitens, é uma sempre-viva encontrada principalmente em campos limpos úmidos e áreas de vereda. As hastes apresentam brilho metálico e são costuradas, em geral, com a seda retirada de folhas jovens do buriti.
Antes da confecção, o material é separado, seco e preparado para o trançado. A habilidade do artesão está em controlar a tensão das fibras, formar desenhos e dar resistência às peças sem perder o acabamento característico. O processo pode variar conforme a comunidade, o tipo de objeto e o conhecimento de cada família.
Regras para a coleta sustentável
A coleta não deve ser feita durante todo o ano. A Lei Estadual nº 3.594/2019 estabelece o período de 20 de setembro a 30 de novembro para a retirada das hastes, desde que estejam completamente secas e maduras.
Também é necessário evitar o desenraizamento da planta. As flores devem ser cortadas e espalhadas no próprio local para favorecer a dispersão das sementes. A legislação ainda prevê autorização do Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins) para atividades de coleta, manejo e transporte, conforme a situação do artesão, extrativista, associação ou propriedade. (doe.to.gov.br)
Estudos conduzidos com comunidades e gestores ambientais indicam que o manejo do fogo pode influenciar a floração do capim-dourado, mas queimadas fora de controle ameaçam áreas sensíveis, especialmente brejos e veredas. Por isso, o uso do fogo exige planejamento, controle e respeito às orientações ambientais. (revistaeletronica.icmbio.gov.br)
Como valorizar a tradição ao visitar ou comprar
Quem visita o Jalapão pode contribuir para a continuidade desse conhecimento ao adquirir peças diretamente de artesãos, associações ou pontos de venda comunitários. É recomendável perguntar sobre a origem do produto, valorizar o trabalho manual e evitar materiais oferecidos sem informação sobre procedência.
Durante uma visita a comunidades como Mumbuca e Prata, o ideal é respeitar as regras locais, pedir autorização antes de fotografar pessoas ou espaços de trabalho e não retirar plantas, fibras ou sementes por conta própria. A contratação de condutores e a compra dentro das comunidades também ajudam a fortalecer o turismo de base comunitária.
Preservar o capim-dourado significa proteger simultaneamente uma espécie do Cerrado, os ambientes úmidos onde ela cresce e os saberes que transformaram suas hastes em símbolo cultural do Tocantins. O consumo responsável e o cumprimento das regras de manejo são formas práticas de apoiar essa cadeia.